A má educação transbordou para as ruas — Foto: Freepik RESUMOSem tempo? Ferramenta de IA resume para você

A má educação transbordou para as ruas — Foto: Freepik
GERADO EM: 21/04/2026 - 17:33
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Dou “bom dia” e ele passa em silêncio,com ar de desdém. Peço “por favor” e ela me olha com curiosidade. Agradeço a um terceiro e só consigo uma expressão de indiferença.
É só comigo ou já aconteceu com o leitor?
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Pois então somos dois. A má educação militante está se espalhando: na reunião de condomínio,no clube,no escritório. De quem é a culpa?
Talvez tenha sido do isolamento da pandemia,talvez daqueles de maior ficha corrida na decadência da civilização contemporânea: redes sociais,polarização e overdose de telas.
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Por aqui os códigos mais ortodoxos da boa educação nunca fizeram muito sucesso,mas havia uma gentileza genuína,uma boa vontade natural. Demonstrada de maneira informal,a simpatia era a marca nacional. Se o “bom dia”,o “por favor” e o “obrigado” eram às vezes esquecidos,nunca foi por rispidez: talvez por um lapso de memória ou mesmo a falta de uma educação formal. Indelicadeza? Jamais.
Você dava “bom dia” e a pessoa não respondia,mas sorria com sinceridade. Se não tinha um “por favor” literal,existiam expressões e gestos que se podiam considerar equivalentes. Na falta de um “obrigado”,valia um tapinha nas costas ou até um abraço.
Ficavam claras as boas intenções.
A gente se entendia,ou ao menos se respeitava. A fama de boa praça do país tropical correu o mundo. A razão da simpatia,do poder,do algo mais e da alegria,como cantou Jorge Ben Jor.
De um tempo para cá,a mistura fina dessa educação informal desandou. Não no Brasil profundo,mas no que,diplomaticamente,vou chamar de “classe média urbana”.
Entendedores entenderão.
As redes,as telas e a polarização demonstraram que,no barata voa do mundo online,o respeito é algo dispensável,quando não inconveniente. O algoritmo sabe que cortesia não dá engajamento,muito menos lucro,então promove todo tipo de discórdia e estupidez. A senhorinha que dá “bom dia” no grupo é tratada com desprezo,o rapaz que responde com calma é ignorado e quem não é um raivoso contumaz torna-se um subversivo que precisa ser bloqueado.
Educação? Boas maneiras? Sai pra lá,vovô!
O problema é que,depois da pandemia,esse comportamento deletério transbordou para as ruas,para as esquinas,para a convivência no mundo real. A tal gentileza nativa foi arquivada,e a boa vontade ficou na memória.
Civilidade? Vá procurar a sua turma!
A grosseria se tornou o padrão em todo o espectro. Muitos conservadores passaram a considerar qualquer tipo de polidez como frescura. “Bom dia” é coisa de velho; “por favor”,de fraco; dizer “obrigado” é uma humilhação desnecessária.
Do outro lado,a coisa não anda muito melhor: vários progressistas,daqueles que tratam CPFs como se fossem CNPJs,decretaram que quem não é da sua tribo é indigno de respeito. Como dar “bom dia” a uma pessoa que parece o opressor? Como dizer “obrigado” a quem não celebra a nossa virtude? É o que questionam,com cândida intransigência.
E lá vão eles,rosnando e relinchando,espalhando coices e patadas,tornando as ruas tão hostis quanto o seu mundo digital. Habilidades como domador de leões e encantador de serpentes se tornarão vitais para sobreviver nas cidades.
Cabe a quem ainda vive no país da gentileza e da boa vontade ensinar aos neosselvagens o básico da convivência civilizada.
“Bom dia”,“por favor” e “obrigado” são um bom começo.